João Rosa de Castro - O Cio da Pedra

PAISAGEM PAULISTANA

Ó céu, céu da manhã,
Azul tão raro deste outono infinito,
Se és único alguém que me escute
Por que te ocultas por trás da nuvem espessa?
Por que por sobre os telhados simples
Há sempre o concreto a insurgir-se?
Céu, corpo onipresente desta terra insana,
Ouve e vê os lábios doutro suplicante
Que não sabe mais aonde levam os dias
E só vê miséria pelos arredores.
Monstro em pesadelo que exala odores.
A nobreza incauta que nos cobra a alma
Qual demônio lúcido que nos lê o pacto.
Céu, azul sedento de olhar melancólico,
Apontai-me um deus que seja certeiro,
Uma prece, um mantra, um sorriso inteiro,
Que já o desatino sem demora alcança.
Céu, telefone intenso a ligar consciências,
Jaze sobre o meu pranto feito lenço enxuto,
Mostra-me a semente que dará seu fruto,
Que essa existência pede mais um dia.
Ó céu, céu do meio-dia que clareia agora
E já ensaia resposta ampla.
Alma onisciente a remeter olhares para o alto.
E não há mais nuvens, e não há miséria.
E não se vê mais decadência.
Tudo ao redor encanta
Pela tua sua brisa majestosa e mansa.
Eu não tenho mais que pedir.
Contemplo os movimentos e gestos que enfeitam
As avenidas.
Ó céu, céu da meia-noite que a lua visita.
Diz a importância do meu pensamento.
Diz a serventia desta porta aberta
Se eu me escravizo solitário e nulo.
Mente onipotente, breu da nostalgia.
Céu, que permaneces enquanto a vida passa,
Abriga a esperança que já anda doida,
Sussurra tua ordem oportuna, eterna.

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