João Rosa de Castro - Amargo & Inútil


COLÔNIA É preciso muita educação sentimental para que se enxergue a beleza dessa arte tão vibrante, tão esplendorosa, praticada em praça pública. Há muito não exercito meus sentimentos, pois atordoado por mais um assalto federal acabei agachado na calçada recolhendo moedinhas de um centavo que restaram no bolso e foram rolando pelo meio-fio. Fiquei, fiquei e até hoje vou ficando agachado procurando as moedas espalhadas. Daí deu no rádio que os superpoderes afinal se uniram e rezaram pedindo coisas bonitas ao papai-do-céu. Quiseram tomar comunhão e tomaram. Deu no rádio. Deu no rádio. Uma liturgia nova fê-los esmorecer envergonhados e esmoreceram. Por fim deixaram de ter muitos ataques e acessos de histeria apopléctica, licenciosidade dolosa, esperteza ardil, vulgaridade caprichosa, mentira vil, ganância cega, covardia lúcida, ignorância crônica, todas essas propriedades com que não atino no Houaiss... Abriram mão da tecnocovardia (Vejam, os presentes, vejam!). Dormiram. Dormiram. Acordaram inteligentes quais os filhos da mandioca européia inteligentes. E o Brasil quase virou uma Europa toda bem grande em forma de coração bem grande. Eu até agora agachado que estava, fui-me erguendo e sentindo frio-muito-frio no Brasil. Minhas moedas foram ficando douradinhas quais as de lá. Os brasileiros principiaram falando inglês, ameriquês, francês, italiês, canadês, japonês, russês, todas essas linguagens faladas no gessete, geoito e nos mais gês que foram inventando com os anos e que serão ainda inventados. No que a neve já branquinha enfeitava até à Rua da Quitanda. E os brasileiros já também vestiam overcoat pela Sé, Santa Tereza e Boa Viagem e até principiaram pensando que estavam sendo invadidos pelos outros mundos novos. Os brasileiros não compreendiam a invasão. Deu no rádio. Deu no rádio. Tiveram até vexame de dança de garrafa, casas de alvenaria e muitos barracos de favelas. No entanto, todas essas choupanas foram se transformando em museus de grande arte, parques de belos jardins e assim formou-se a Europa do Sul com os miseráveis vivendo todos felizes e sem fome dentro dos museus, feitos obras de arte que se contentavam com a contemplação dos visitantes. As artes eram estátuas, estatuetas, quadros, instalações, cerâmicas, papel-machê, aquarelas, cristais lapidados, todos esses manjares pros olhos alheios. Tudo feito de ex-pessoas. Eu porém colhendo as moedas já feitas cêntimos de euro, principiei tendo muita saudade do Brasil d’outrora.

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