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domingo, 16 de outubro de 2016

João Rosa de Castro - Amargo & Inútil


CHÃO E CIRCO Havia um risco desenhado na esquina deserta. O servidor trouxe-o direto para os jornais. O risco invadiu as praias e piscinas; tomou conta das lavadeiras de além-riacho. O risco foi secando os pratos e as mesas. O risco apossou-se das estações do ano e de trens. Havia um risco na virilha da criança bastarda. O que na pele se escondia alastrou-se pelo corpo e tomou-a toda, o espírito inteiro e a barba, em homem. O risco calou Beatles e beatos. Removeu montanhas com sua fé fabricada nas colunas decentes. Depois que descobriram como multiplicar versões brasileiras de rejoicing (um neomodo de acabar com o néon), depois, inda ao contarem as contas de ouro na sandália das neoninfetas (uma neomaneira de armazenar medo no humano coração), até Tenório – tão apaixonado – perdeu a amável namorada. E tudo virou a selva. E a selva virou vitrine. E a vitrine virou tudo. O risco sobressalente e tirânico encomendou pichação faltando cedilhas, instituiu viração nas mais santas cidades e transformou o mundo nesse mundo em que piso da noite para o dia.