João Rosa de Castro - Amargo & Inútil


OPUS DEI Tomou pelo braço o pensamento e sacudiu-o. Disse ter o pensamento o mesmo peso e dimensão do ato. Seus amigos sucumbiram ao mal de amores. Ele não sucumbiu também, que nunca teve amores. Ingerira uma certa náusea – uma ojeriza – a tudo que configurasse romântico. Fugindo de conversações lúdicas. Fugindo de ambientes perfumados; achava tudo muito caro – sentia-se pobre mesmo com todos os sentidos avidamente ricos. Viu propaganda da festa que ostentava três por cento de elementos famosos e 97 de estranhos. Quis ir à festa. Só quis pois que era mais-que-estranho. E sua cama e sua casa e sua rua e sua cidade e seu país e seu planeta, tudo o que lhe pertencia foi tombado pelo patrimônio histórico de Deus. E disse-lhe Deus. – O teu pensamento voa mais alto. E Deus calou-se. Tendo ouvido a voz de Deus, o homem quis ir à igreja e foi. Viu uma edificação mui sacra que era, porém, shopping-center. Comprou, comprou, comprou – comprou esquecendo ser pobre. Sentiu um alívio depois da comprança. Indo com as compras deparou com ladravazes que nele bateram a dizer: “Salve! Salve! Salve!”. Levaram suas prendas quais deles. Ele não compreendeu nunca o que era Salve. Pensou, repensou, tornou pensar em Salve. Cansou-se de pensar, tomou o pensamento pelo braço, sacudiu-o. Esqueceu o que ouvira de Deus.

Postagens mais visitadas deste blog

João Rosa de Castro - Zum

João Rosa de Castro - Zum

João Rosa de Castro - Zum