João Rosa de Castro - Amargo & Inútil


O PODER DAS ESTRELAS Se eu fora com a presença encardida por trás dos olhos a exibir a verdade em que insisto ter-me-iam dito lunático. Mais um bêbado no afã de se enturmar – diriam. Aquietei-me; o pensamento vivo porém em solo andava-me por infinitos lugares do imaginário. Cartas do inconsciente em hieróglifos impossíveis. Cores misturadas – infundadas. Só via mesmo cinquenta por cento do mundo em um só bolso. A inteligência quase inteira – e  macia – num único cérebro. Um senhor gritou: “Bingo!”. Uma senhora gritou “Bingo!”. Um homem, uma moça, uma criança e até anjos gritaram “Bingo!” e “Linha!” e os demais se assustaram. Todos os premiados tornaram-se viciadíssimos em dinheiros fáceis e por mais especularam nas bolsas depois. Especularam, especularam, especularam e nunca mais produziram um só objeto; esqueceram o país em que ficava Kyoto – e o globo esquentou. Eu via tudo, via tudo e achei graça até mesmo na desgraça. Eu era um lunático com certeza. Houve quem arrancasse de si a violência contida havia anos para vingar-se e mostrar quão valente era. E eu via. Via da profundeza da minha indiferença centenas de casebres populares enfileirados e idênticos. Como me lembravam produtos na gôndola! Mas eu jamais me manifestaria. Eu jamais faria diatribes. Eu era um amor de pessoa. Sincero qual the enron’s balance sheet. Depois que envelheci muito e vi-me idoso, propuseram que eu levasse o bagulho para o asfalto. Disse que ia pensar mas nunca dei resposta. Só pensava em inteligência. Só pensava em informação. Só pensava em perfumes e concordatas. Morri pouco depois.

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