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domingo, 4 de dezembro de 2016

João Rosa de Castro - Amargo & Inútil


PROPAGANDA Houve equilíbrio nesta terra. E ainda havia quando passou em revista o governador montado em suntuoso cavalo pela tropa de elite, tropa de choque, todos os soldados militares em sentido e os outros civis. Deu a eles honra. E ainda houve quando passou com olhar lancinante em passos ruidosos o primeiro comandante da capital dando ódio – inspirando potência – à tropa de gangsters, batalhão de bandidos, todos os comandados. Deu também a eles honra. E houve nesses dois fatos, matematicamente pinturescos, equilíbrio. O exemplo dado dos que protestam, o exemplo dado dos que soletram quanto se faz – até o núcleo duro desse poder copiou. Teria sido fundamental exigir que não burlassem esta arte que vos contempla porque no tempo das cavernas eu pintava na caverna minha alma de caverna em letras e eles só apreciavam. Apreciavam. Não sabiam condenar nem escrever nem criticar nem tampouco discutir signos por meio de signos. Bons tempos aqueles sem essa sorte de espiões. Sem fala, prumo, régua. Árdua saudade que nunca será demonstrada. Houve silêncio nesta terra. E ainda havia quando mostraram na tevê a cara – sem dizer o nome. Delírios e psicoses pré-eleitorais. Material eufemismo. Entretenha as gentes eu. Engane as almas eu. Morra com o milenar segredo modernista eu. Pansexualmente eu – teria eu dito. Meu tamanho seguiu quanto tormento eu suportei. Agigantei-me globofobicamente em silêncio. Démodé. Que ser pois? Um íncubus do humano-macho? O teto para o lucro? O assalto da mais-valia? Uma assombração ou mais um grito? Não, não, não, não. Havia equilíbrio no mundo até que na intenção de alimentar os miseráveis errei a mão e alimentei a miséria. Depois, porém, distraí-me com o reality-show e me esqueci do crime. Houve paz na Terra. À medida que os limites me invadiram, menor deus tornei-me.