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domingo, 18 de dezembro de 2016

João Rosa de Castro - Amargo & Inútil


PERSONA NON GRATA A indústria da piedade seletiva cresceu em número de almas. Almas-não-bandidas defendendo almas bandidas. O meu desejo era encontrarmos mais fórmulas de decadência para resistir à decadência. Transbordando dos inconscientes a mesquinharia. O capital – pivô das contendas, homebreaker, muralha separando os indivíduos – vira devoção para o mais reles vassalo. Usarei os meus dedos para comunicar meus desejos. Usarei os meus dedos de príncipe da televisão digital. E mudarei meu discurso, e nomearei belas artes, e viverei no meu mundo da sala, da sala, de qualquer sala. E o lixo eletrônico iria prà Índia, e o lixo eletrônico iria pràs sulaméricas; o humano pra cuba. Feitas as contas, estarei satisfeito com perfumes e roupas da moda, saciando todos os impulsos dessa carne que me toma. Fiz da terra o ventre que me gesta contínuo. Unido, jamais serei vencido. Com olhar rico e ares de benevolência darei autógrafos nas filas dos albergues e Agadês. Ó, eu. Ó, eu. Ó, cego eu. Cego eu. A realizar-me na minha invejável e temível inteireza. Ó, eu que unido jamais serei vencido.