João Rosa de Castro - Amargo & Inútil


SANGRIA Ditaram a impossibilidade. Disseram incurável este corpo febril. Nunca terão êxito – previram. Nunca sairão da margem – julgaram. Sempre um texto fragmentado – zombaram. Sempre carregarão um produto isolado, comprado – arguiram. E nós paramos no meio do caminho, nos dispersamos, nos atrasamos ainda mais e enlouquecemos pouco a pouco. Voltamos à idade mais desprezível que teve o homem em sua história. Das cavernas vimos os pupilos em suas espaçonaves ao longe. Quisemos também avançar – num átimo –, mas conhecíamos que as toneladas de nossas almas nos impediriam agourentas. Este corpo, porém, só mesmo nós podíamos mover. Sem influências espetaculares, sem crimes à base de prêmios nem prêmios à base de crimes. Permanecemos devagar a olhar. E libertamos a consciência do atraso geral, trancado tão meramente numa bolinha de sabão. Vimos caiapós com altos valores de mogno nas costas; e cidadãos disfarçados em cocares. Notícias. Notícias populares – qual teria sido impopular? Dize o que nesta vida não seja popular. Diretas já a toda parte. Marajás alhures. O Real em alguma terra habitada ou desértica do mundo. Estabilidade sonhada aos zilhões. Hipertensa e viciosa segurança. Ditaram a inviabilidade da vida. Desenganaram o instrumento de salvação.

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