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domingo, 1 de janeiro de 2017

João Rosa de Castro - Amargo & Inútil


PRENÚNCIO Nós chegamos. Depositamos nossas sacolas com propaganda de supermercados para propagar intransitivamente. Nós nos alojamos nas pensões da cidade escura. Agora, preparem-se os temerosos, que nossa presença de espírito não tem muito a perder. Eme, Esse e Tê querem terra ordinária e legítima. Não querem mais do que lhes caiba. A terra que, porém, reclamamos não é com os pés que se pisa, não a que se procura à deriva, não alguma que haja em mapa. A terra que proclamamos, a terra que prenunciamos não tem sequer pronúncia pois que não cabe ainda em boca que só se queira humana. Esse agrário recorte virtualmente cibernetificável, e material embora, não será o estapafúrdio novo mundo que vem do domínio popular sem nenhuma rubrica convincente, não será a prometida terra nova com suas pedras preciosas que desce dos céus, ainda. Vede nossos mijados enxovalhados mixados na mala com perfumes caríssimos. Vede nossa cara amarrada de quem revoluciona os arredores a cada passo ou palavra. Conferi nosso passaporte amarrotado e nosso português pornofônico sem nexo ou raiz. Não havemos de ir e vir desse modo estático. Não havemos de nos contentar com essa mímica milenar e esses sentimentos manjados. Pesquisamos os nossos jornais mais baratos e preparamo-nos para transmutar intransitivamente o cotidiano. Somos da fortuna intransponível do angu e altamente alfabetizados e lidos, conhecedores atentos da micro e da macro estrutura do mundo. Quem testará? Quem categorizará? Quem ousará de 1 a 10? Não cuidais que somos unidos, que se unem os que se unem contra outro corpo. Não somos concentração, somos dispersão pura e realizável. Acordai, acordai. Chegamos.