domingo, 22 de abril de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

MIRAGEM
(a Cruz e Souza)

Enfim um mundo em que se faz livre,
Respirando o ar escolhido,
Alheio às falas estridentes e distantes,
Sentindo no peito um coração mais insistente.

Enfim a imagem esperada,
A liberdade de ser apenas nulo,
Sabendo em si saídas para o amplo,
Sabendo ao seu redor asfixia.

Enfim memórias vivas e encenadas,
Revoluções que guarda o pensamento,
Imensidão de mundo a ser pisada,
Com outro mundo a borbulhar na mente.

Enfim a natureza tão presente
Engana e tece a cada horizonte
Uma fotografia nova e viva,
Seus passos se confundem com o chão,
Sua voz ao ar entrega a sua dor
E as portas não percebe: anestesia.

Enfim a vida que se faz ventre.
A nova solidão se manifesta,
A música ouvida não repete
Nenhuma nota jamais antes ouvida
Ou pausa que permita afastar-se.

Enfim robotizar-se por completo,
Até que a alma compacta se renda
E o corpo corresponda a uma miragem.


PAISAGENS ONÍRICAS

No ano de 2013, eu delirei ao ponto de comprometer o grand finale da obra citada na mensagem anterior, “O Sonho de Terpsícore”. Por sorte, iniciei o último livro de poesia que tenho escrito, Paisagens Oníricas, que, como produto do meu delírio, tinha registrado como Loucura a Seis.
E veja como existia um método em meus delírios: “eu queria tomar um porre homérico. Eu queria um poema ingoogleável. Traria para a realidade todas as possibilidades dos sonhos. Tudo seria trágico. Tudo seria mágico. Mas o dia, a tarde, a noite, a madrugada foram incompletos.” Assim se inicia o primeira estrofe do primeiro poema, “Favônio do Oeste”.
Não havia erro aparente na sintaxe nem na semântica nem na morfologia nem na fonologia: […] “Mas isto é tão cristão. A poesia, o álcool, os inimigos – tudo tão cristão. […] E mais uma vez tive orgulho da minha tão sóbria solidão.”.
“A Noite Fria” termina dizendo assim: […] “Meu amigo foi embora, embora eu o paparicasse, eu lhe enchesse a bola, eu o exaltasse. A noite fria fica em silêncio enquanto eu me movimento rumo ao infinito.”.
Depois do penúltimo poema, lindo poema, a Hermeto Pascoal, não compreendo a balbúrdia que fiz da minha poesia. Escrevi um poema chamado “Tão”: “Poeminha árabe-encantado, a ofertar aos seis anjos que vi no oeste.”. E, pouco depois, […] “(João, onde está minha chupeta?).”. A partir disto, cito os dez mandamentos de Moisés, no meu eterno e hebraico delírio.
Depois desse fim amargo, só me resta concluir o último livro de poesia que pretendo escrever. Já está começado, e tenho escrito devagar, muito devagar. Às vezes demoro de seis meses a um ano entre um poema e outro. Mas este será mesmo o último. E talvez seja descoberto por algum Rei Josias, dentro dos meus guardados.

João Rosa de Castro - Persona Non Grata

O DIÁRIO Anda por ruas estreitas que dão na avenida. Vê os passantes apressados esperando o sinal. Frisa que sabe onde é norte – pr...