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Mostrando postagens de Julho, 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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O BRINQUEDO
Colorido e incessante Produzido e vacilante. Tungstênio e flor de lis. Eu sou tão aceso. Eu sou tão afoito. Eu sou super-homem Na minha ilusão.
Aqui chove, chove. E faz frio, frio. Ser da esperança, Ser do fim-futuro, Ser uma criança Pesa mais em mim.
Dá minha chupeta! Dá o meu chocalho! Dá o meu castelo! Que aqui eu mando. Entra e sai ligeiro Pois aqui impero.
Frontispício abissal Precipício de águas Cachoeira e o que vem depois. Tudo minha praia, Tudo meu brinquedo, Tudo no luar, No tear Em mim.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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PRIMAL
Opaco e diferente Banhado com água tépida. Interrompem o meu soluço, Interpretam o meu sorriso, Vasculham meu pensamento, Tudo, tudo porque existo.
Invadem a minha infância Com revoluções repetidas. Meu choro é um show pra eles Que buscam sinais de vida, E testam o meu silêncio.
O que será isto que é o mundo? Uma fusão ordinária, Quase imperceptível. Eu que não posso ser eu. Você que não pode ser você. E nos tornamos fantasmas: Uns dos outros e além.
Como entregar-me a alguém Que não se sabe, Que não se alcança, Que não se cansa E quer ser também Opaco e diferente?
Terá sido isso um luxo? E inda o que mereço é castigo? E as cores que vejo vivas? Não serão minha propriedade?
O amor é leite? O amor é vício? O amor é sujo? O amor é livre?

Respeita o meu pacifier. Respeita o cueiro e a fralda. O chocolate e o chá Que bebo de camomila.
Veja o que é ser filho. Veja eu cá sem dente. Veja o pai distante. Veja a mãe contente.
O beijo na lisa face, As cócegas no pescoço,

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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VIVENDOO leite toca o palato E os pés ardem. A minha seriedade é tão inabalável que choro. Você me acaricia, faz brincadeiras com canções e fonemas. Mas não alcança agradar-me. O que é isto que é o mundo? O seio, a boca, o queixo, sim, dizem. O perfume e a maciez da pele encantam.
Canta de novo, rainha. Conta o teu sonho em silêncio. Por que me olhas com medo? Sai de mim e vem para mim. Me embala e me esquece. Seja uma e outra a um só tempo. O ar que inspiro e arremesso. Cumpra, pois, o impossível. Traduza agora o indizível.
O leite vacila na língua. Os lábios desenham paisagens. O deus faminto e voraz Que sou, que penso e resisto, De colo em colo resido, Querendo, amando e sendo. E se aproximam e eu temo
Num gesto de persistir.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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A HORA

Adeus, minha África,
Que o Deus expulsou-me.
Um grito tão mudo
Um nobre suspiro
Ocupa o meu peito
Nesta vastidão.
Tudo ficou distante.
Nunca mais o abraço!
Nunca mais essa entrega;
Esse estar só em mim.

Adeus, minha tribo
Que aqui tem asfalto.
A dança da chuva,
A festa do fogo,
O urucum desenhado
Serão só memória.

Metais disfarçados,
Olhares externos
Me prendem,
Me querem,
Me tomam para si.
A civilização:
Fast-food.
A urbanização:
Urubus
A martirização:
Glu-glu
A piedade:
Air-bag
A in-saciedade:
Ducredo
A informalidade:
Tudo é azedo.
Zero:
Um tapa.
Um:
Um lapso.
Dois:
Um terço.
Viver não tem cura.