domingo, 26 de julho de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

O BRINQUEDO


Colorido e incessante
Produzido e vacilante.
Tungstênio e flor de lis.
Eu sou tão aceso.
Eu sou tão afoito.
Eu sou super-homem
Na minha ilusão.

Aqui chove, chove.
E faz frio, frio.
Ser da esperança,
Ser do fim-futuro,
Ser uma criança
Pesa mais em mim.

Dá minha chupeta!
Dá o meu chocalho!
Dá o meu castelo!
Que aqui eu mando.
Entra e sai ligeiro
Pois aqui impero.

Frontispício abissal
Precipício de águas
Cachoeira e o que vem depois.
Tudo minha praia,
Tudo meu brinquedo,
Tudo no luar,
No tear
Em mim.

domingo, 19 de julho de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

PRIMAL


Opaco e diferente
Banhado com água tépida.
Interrompem o meu soluço,
Interpretam o meu sorriso,
Vasculham meu pensamento,
Tudo, tudo porque existo.

Invadem a minha infância
Com revoluções repetidas.
Meu choro é um show pra eles
Que buscam sinais de vida,
E testam o meu silêncio.

O que será isto que é o mundo?
Uma fusão ordinária,
Quase imperceptível.
Eu que não posso ser eu.
Você que não pode ser você.
E nos tornamos fantasmas:
Uns dos outros e além.

Como entregar-me a alguém
Que não se sabe,
Que não se alcança,
Que não se cansa
E quer ser também
Opaco e diferente?

Terá sido isso um luxo?
E inda o que mereço é castigo?
E as cores que vejo vivas?
Não serão minha propriedade?

O amor é leite?
O amor é vício?
O amor é sujo?
O amor é livre?


Respeita o meu pacifier.
Respeita o cueiro e a fralda.
O chocolate e o chá
Que bebo de camomila.

Veja o que é ser filho.
Veja eu cá sem dente.
Veja o pai distante.
Veja a mãe contente.

O beijo na lisa face,
As cócegas no pescoço,
Carícias na pele toda,
Fazem o rebento viver.

domingo, 12 de julho de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira


VIVENDO

O leite toca o palato
E os pés ardem.
A minha seriedade é tão inabalável que choro.
Você me acaricia, faz brincadeiras com canções e fonemas.
Mas não alcança agradar-me.
O que é isto que é o mundo?
O seio, a boca, o queixo, sim, dizem.
O perfume e a maciez da pele encantam.

Canta de novo, rainha.
Conta o teu sonho em silêncio.
Por que me olhas com medo?
Sai de mim e vem para mim.
Me embala e me esquece.
Seja uma e outra a um só tempo.
O ar que inspiro e arremesso.
Cumpra, pois, o impossível.
Traduza agora o indizível.

O leite vacila na língua.
Os lábios desenham paisagens.
O deus faminto e voraz
Que sou, que penso e resisto,
De colo em colo resido,
Querendo, amando e sendo.
E se aproximam e eu temo

Num gesto de persistir.

domingo, 5 de julho de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

A HORA
 
Adeus, minha África,
Que o Deus expulsou-me.
Um grito tão mudo
Um nobre suspiro
Ocupa o meu peito
Nesta vastidão.
Tudo ficou distante.
Nunca mais o abraço!
Nunca mais essa entrega;
Esse estar só em mim.
 
Adeus, minha tribo
Que aqui tem asfalto.
A dança da chuva,
A festa do fogo,
O urucum desenhado
Serão só memória.
 
Metais disfarçados,
Olhares externos
Me prendem,
Me querem,
Me tomam para si.
A civilização:
Fast-food.
A urbanização:
Urubus
A martirização:
Glu-glu
A piedade:
Air-bag
A in-saciedade:
Ducredo
A informalidade:
Tudo é azedo.
Zero:
Um tapa.
Um:
Um lapso.
Dois:
Um terço.
Viver não tem cura.


João Rosa de Castro - Persona Non Grata

O DIÁRIO Anda por ruas estreitas que dão na avenida. Vê os passantes apressados esperando o sinal. Frisa que sabe onde é norte – pr...