domingo, 29 de março de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

INCURSÕES DE FRANCISCA




Louvado de paca, louvado de cotia,
Se tivesse mais, mais eu comia.



Louvado de Nietzsche, louvado de Sofia,
Se tivesse escrito mais, muito mais eu lia.



Louvado de Abujamra, louvado de Maria,
Se tivesse mais programa, mais eu assistiria.



Louvado Januário, louvada seja a eslava,
Se tivesse mais cidade, muito mais eu caminhava.



Louvada seja Vilma, louvada companhia,
Se tivesse quem ouvisse, muito mais eu falaria.



Louvada é a Luisa, louvada a bruxaria,
Se tivesse um leitor, muito mais escreveria.



Louvado Black Label, louvada boemia,

Se tivesse mais amigos, muito mais eu beberia!

domingo, 22 de março de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves


LOUCURA A DOIS




Cuida que há uma aranha no porta-jóias.



Há um diabo no teu quarto
E um veneno no bocal do telefone.



Cuida que há um ladrão atrás da porta.



Há um frio que chega outonal
E uma chuva no teu casamento.



Cuida que há um motorista embriagado
Esperando atravessares a rua,
E tu podes não enxergá-lo.



Cuida que há caruncho no feijão,
Há um bicho na goiaba;
Pilhéria na televisão.



Cuida que Helena tem uma visita
Indesejável qual um morcego,
E pode partir reclamando da comida.
Cuida que há um cancro no teu corpo
E se morreres morrerás
Sem que possas me encontrar.



Cuida que o voo está atrasado,
A aeromoça ressabiada,
Há parafuso solto.



Cuida que todo cuidado é pouco.



E ainda podem te ver nua na Internet.



Em cada clique impera um louco.



Cuida que eu preciso ir-me embora
Não há anjo que me renda –

Mas vem razão depois da aurora!

domingo, 15 de março de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

CARNAVAL SEM FOLIA




Estou cansado de mim.



Como quereria olhar ao espelho e ver outro alguém!



Eu nunca estou feio, nunca estou belo.



Quem perderia de mim?



Quem me derrotaria?



Tornei-me um homem sem face.



Um homem sem homens.



Um homem sem um – um que me ensinasse tudo.



Tudo o que fosse bom aprender.



Onde está minha infância?



Por onde andará minha adolescência?



Não sei mais regra de três.
Não sei mais o que é transitivo,



Meu mundo fechou e nada nem ninguém mais transita.



Congelou-se o mundo
E as esculturas escrevem…!

domingo, 8 de março de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

UMA VIDA NUM VERSO
                      (Aos irmãos, Franco e Fernando)



Um planeta para os múltiplos orgasmos dos seres.



Que andei suspendendo meu vestido de noiva com face monstruosa;
Tornei-me a noiva da morte que brilha;
Sem nome e sem número.



Escondendo minha nudez da vergonha de ter vergonha.
O medo de ter medo procura minha armadura,
Apesar de meu “cavasno” servir-me contra a chuva.


A primavera se prenuncia a cada riso, a toda flor.



Cinderélica à meia-noite em desespero na caverna disfarçada.



Que príncipe será esse o batedor de plebeia?



Sou a mulher mais velha que há – amo a velhice como quem ouve um sabiá, que, perdido na cidade, não soubesse assobiar!



O proletário mais decrépito que jamais existirá.
Combinemos, no entretanto, nossa recíproca tortura,
Nosso silêncio na cama,



Troquemos nossos livros para sermos de repente um o outro meramente e continuarmos nos adorando.



Que andei grávida qual Zeus de seus filhos alegres,
           Dando-te à luz que nasce a cada manhã!

domingo, 1 de março de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

ODE À AURORA
                      (à Maria Ferreira Silva)




Se eu fosse uma mulher, seria como a Aurora.



Diria que tudo ao nosso redor está uma pouca-vergonha;
Tudo é uma ignorância,
Tudo é hipocrisia,
Tudo é privilégio de poucos;
Ninguém tem responsabilidade.



Se eu fosse uma mulher, amaria como a Aurora.



Devoraria,
Maltrataria,
Acariciaria,
Condenaria,
Chamaria para dentro de mim e expulsaria de dentro de mim.



Se eu fosse uma mulher, mudaria como a Aurora.



A cor das paredes,
O caminho para casa,
Os móveis,
As profissões: mesmo que me rebaixasse,
A música que ouvisse – mesmo que só andasse com as multidões;
Desde a arquitetura da minha calçada – até a arquitetura da via-láctea.



A Aurora é a Liberdade guiando os homens.



Se eu fosse uma mulher, desejaria como a Aurora.



A aura dos homens e a sua companhia desprezível.
Um dos netos,
Um dos filhos,
Um dos irmãos,
Um dos genitores,
Um dos arvoredos, dos copos, dos chás.



Se eu fosse uma mulher, riria só como a Aurora.
Uma risada patente,
Uma desgraça muito alheia,
Uma simples piada no vídeo,
Sem me importar, sem humor-negro – com inocência.



Se eu fosse uma mulher, rezaria como a Aurora;
Com as mãos para o meu “Deus”, que ninguém visse,
Que ninguém conhecesse.



Teria, como a Aurora, um “deus” único,
Exclusivo para mim.



Que me sussurrasse tudo ao ouvido como canção de ninar nas épocas de bem-aventurança
Ou como trovões no meio da guerra, para que eu corresse, gritasse, avisasse a todos sobre o perigo.



Se eu fosse uma mulher, me vestiria como a Aurora – nem virginal nem periguete.



Faria, como a Aurora, uma surpresa sempre.



Como se me casasse a cada dia com o mundo.



Ah se eu fosse uma mulher!



Seria uma eterna Aurorinha.




Admirada do esplendor da grande e amada Aurora…!

João Rosa de Castro - Amor Grátis

FILOSOFIA TROPICAL A Mário, ares nordestinos, Ditirâmbicas brisas, revigorando a manhã. Passagem livre pelas portas bem trancadas....