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Mostrando postagens de Agosto, 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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AMBIÇÃO
Na cadeira tem um nome Que é do pai que chega à noite. No intenso dia ao fim Entra vento na janela. Se as paisagens são incultas E os passos caipiras; Se é um ensaio de mundo Ou um prelúdio, prematuro; Eu é que me torno inteiro E quero sentar na cadeira.
Tiro a roupa da terra e me visto. Colho a batata rasteira e mordo. Numa insistência de sentir A abrasadora e conhecida do estômago fome. Numa agonia de viver A encantadora e procurada do meu corpo nudez.
Em nome de quem é preciso que te visite? Com qual interesse vou olhar o teu rosto?
Já amo cedo e mastigo carne. Esculpo pensamento com a minha mão pequena. Tenho capacidade de querer vicioso. Estou com muita graça.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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O JEANS
Pra não repetir o que já disse Digo-o desse modo disfarçado. O ontem, o hoje, o amanhã São só memórias inventadas.
Manifesto, maniatado, o meu desejo. Duro o mundo. Duro, duro. Eu, menos duro e mais calado, Estúpidos cupidos vejo aos montes.
Tróia e rua Helvétia Damasceno. Nilo e Tietê são bons amigos. Monjolo, o Caetano diz primeiro. Repolho é comida, é comida.
Paredes cheias de quadros e grafites. Pichação mesmo! pura e simples. Embaralhado ficou o meu pensamento. Escorriam as bolhas do teto ao chão. Arrastavam-se no vertical caminho. Espalhada a pasta no piso claro, Os jornais já recolhiam pra notícia.
Eu estou num país. Eu estou numa vila. Eu estou no meu quarto.
E tem o hospital. E tem o velotrol. E tem o arraial.
O jeans molhado que a bunda aperta Nos olhos é azul, na pele esquenta. No bolso tem dinheiro e uma foto. A calça cobre as pernas e vai aos pés Tudo normal. Tudo normal.
A estupidez não é uma palavra.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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O QUE FOI NO PEITO
Foi uma festa Que fiz a ele. Ele é tão lindo Que dá gosto. Cada palma, Cada papa, Cada afago Que dou a ele Ele devolve Com sorriso, Com vontade E brilho nos olhos. É um príncipe mesmo. É o que há para alegrar-se. Ser mãe não é pecado. Mas ser mãe dele é. Dá vontade de colar ele em mim toda.
Seus cabelos finos. Sua pele firme. Sua boca quase muda. Enlouquecedor. Eu enamorada Me esqueço do mundo. O seu sorriso consola E seu choro atrai. O perfume tão próprio E o hálito eterno Me encantam as narinas.
Fique lá a casa. Fique lá o homem. Fique lá o todo. Que eu só tenho tempo Se o tempo é com ele.
A minha riqueza é ele. A minha herança é ele. A minha construção arquitetônica é ele. A minha arte é ele. A minha possibilidade de reviver Por saber que fecundo e produzo gerações é ele.
Foi uma festa.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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A ROSA
Bossa! Que não que não é nova. Possa eu levitar na fumaça. Seja pra mim uma resposta. Penso mais que o livre-pensador. Cheiro o pano cheio de talco. Vibro com o futebol na tela. Rio com carnavais ardentes. Sinto a mãe aqui tão perto. “Froide descansava de férias no arpoador. Enquanto isso, eu aproveitava para mamar.” Ninguém via o que era escondido. Ninguém maldava isso. Era um absurdo insinuar que um anjo...
Mostra o que há atrás da cortina. Nossa! Um alemão de transa. Cuida que eu inda não dizia. Mente para passar os dias.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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O MEIO
Manhã, acordo sozinho. Acho estranha a figura do teto. Se aproximam de mim, eu sorrio. Eu balanço o pezinho pedindo Colo, leite, carinho.
Prazeres dos beijos na boca. A mão que desliza na pele. A bunda tocada, a coxa. O sol da manhã ilumina.
A casa parece uma dança. Um vai pra lá e pra cá. Não sei o que dizem tanto Atrás das paredes e portas.
É uma orquestra. É uma passeata. É um manifesto. É uma falange.
Isto é o meu futuro, Andarei sem rumo. Falarei ao vento. Nada bastará.
Dá dá dá a gá da du gu dá dá são falas.