domingo, 30 de agosto de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

AMBIÇÃO


Na cadeira tem um nome
Que é do pai que chega à noite.
No intenso dia ao fim
Entra vento na janela.
Se as paisagens são incultas
E os passos caipiras;
Se é um ensaio de mundo
Ou um prelúdio, prematuro;
Eu é que me torno inteiro
E quero sentar na cadeira.

Tiro a roupa da terra e me visto.
Colho a batata rasteira e mordo.
Numa insistência de sentir
A abrasadora e conhecida do estômago fome.
Numa agonia de viver
A encantadora e procurada do meu corpo nudez.

Em nome de quem é preciso que te visite?
Com qual interesse vou olhar o teu rosto?

Já amo cedo e mastigo carne.
Esculpo pensamento com a minha mão pequena.
Tenho capacidade de querer vicioso.
Estou com muita graça.

domingo, 23 de agosto de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

O JEANS


Pra não repetir o que já disse
Digo-o desse modo disfarçado.
O ontem, o hoje, o amanhã
São só memórias inventadas.

Manifesto, maniatado, o meu desejo.
Duro o mundo. Duro, duro.
Eu, menos duro e mais calado,
Estúpidos cupidos vejo aos montes.

Tróia e rua Helvétia Damasceno.
Nilo e Tietê são bons amigos.
Monjolo, o Caetano diz primeiro.
Repolho é comida, é comida.

Paredes cheias de quadros e grafites.
Pichação mesmo! pura e simples.
Embaralhado ficou o meu pensamento.
Escorriam as bolhas do teto ao chão.
Arrastavam-se no vertical caminho.
Espalhada a pasta no piso claro,
Os jornais já recolhiam pra notícia.

Eu estou num país.
Eu estou numa vila.
Eu estou no meu quarto.

E tem o hospital.
E tem o velotrol.
E tem o arraial.

O jeans molhado que a bunda aperta
Nos olhos é azul, na pele esquenta.
No bolso tem dinheiro e uma foto.
A calça cobre as pernas e vai aos pés
Tudo normal. Tudo normal.

A estupidez não é uma palavra.

domingo, 16 de agosto de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

O QUE FOI NO PEITO


Foi uma festa
Que fiz a ele.
Ele é tão lindo
Que dá gosto.
Cada palma,
Cada papa,
Cada afago
Que dou a ele
Ele devolve
Com sorriso,
Com vontade
E brilho nos olhos.
É um príncipe mesmo.
É o que há para alegrar-se.
Ser mãe não é pecado.
Mas ser mãe dele é.
Dá vontade de colar ele em mim toda.

Seus cabelos finos.
Sua pele firme.
Sua boca quase muda.
Enlouquecedor.
Eu enamorada
Me esqueço do mundo.
O seu sorriso consola
E seu choro atrai.
O perfume tão próprio
E o hálito eterno
Me encantam as narinas.

Fique lá a casa.
Fique lá o homem.
Fique lá o todo.
Que eu só tenho tempo
Se o tempo é com ele.

A minha riqueza é ele.
A minha herança é ele.
A minha construção arquitetônica é ele.
A minha arte é ele.
A minha possibilidade de reviver
Por saber que fecundo e produzo gerações é ele.

Foi uma festa.

domingo, 9 de agosto de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

A ROSA


Bossa! Que não que não é nova.
Possa eu levitar na fumaça.
Seja pra mim uma resposta.
Penso mais que o livre-pensador.
Cheiro o pano cheio de talco.
Vibro com o futebol na tela.
Rio com carnavais ardentes.
Sinto a mãe aqui tão perto.
“Froide descansava de férias no arpoador.
Enquanto isso, eu aproveitava para mamar.”
Ninguém via o que era escondido.
Ninguém maldava isso.
Era um absurdo insinuar que um anjo...

Mostra o que há atrás da cortina.
Nossa! Um alemão de transa.
Cuida que eu inda não dizia.
Mente para passar os dias.

domingo, 2 de agosto de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

O MEIO


Manhã, acordo sozinho.
Acho estranha a figura do teto.
Se aproximam de mim, eu sorrio.
Eu balanço o pezinho pedindo
Colo, leite, carinho.

Prazeres dos beijos na boca.
A mão que desliza na pele.
A bunda tocada, a coxa.
O sol da manhã ilumina.

A casa parece uma dança.
Um vai pra lá e pra cá.
Não sei o que dizem tanto
Atrás das paredes e portas.

É uma orquestra.
É uma passeata.
É um manifesto.
É uma falange.

Isto é o meu futuro,
Andarei sem rumo.
Falarei ao vento.
Nada bastará.

Dá dá dá a gá da du gu dá dá são falas.

João Rosa de Castro - Amor Grátis

ECCE HOMO Eis que ao sentir a vida tão intensa, O Belo avança e toma o intelecto E ao caos do mundo faz surgir um nexo Resulta-me...