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Mostrando postagens de Dezembro, 2013

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

AURA CINTILANTE
Sua pose estatuária, Fixa no meu pensamento, De uma nudez imperscrutável, De mil possibilidades de prazer, De um silêncio vespertino, E uma música ardente e viva, Junta com as mãos os extremos impossíveis, Dá vida ao que jaz inamovível, Chama os seres a uma distância incomensurável, Que surgem rápido, colorindo uma tela em branco. Dá rumo a cada passo – evitando uma queda. Ajusta as narrativas confusas na minha mente, Beija o meu corpo de amor.
Sua imagem, fixa no meu pensamento, Dá conselhos amigos, Prevendo a felicidade vindoura, Ouvindo atenta os meus gemidos, Cresce numa aura cintilante,
Mas vacila e se perde por completo
Quando deparo com você fora de mim.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

AS FLORES DO TEMPO
As horas passam e me convidam 
No convite enigmático,
Para ser feliz. O cigarro me cega. O palato em nicotina Ensombra a dança das horas.
As horas fazem a corte, Insistem para que eu sinta As luzes com o olhar. O compromisso com o mundo: Dissecá-lo, Abrir suas vísceras, Destrinchá-lo, Como se eu não fosse parte dele, Adia o beijo das horas, Cada uma com uma finura diversa nos lábios, Cada uma com um contorno no seio.
As horas cantam alto o futuro, Para que eu me desenhe nele. Mas as lembranças do passado, A obstinação da memória, Ensurdecem meus ouvidos para o canto, E só faz ouvir a música que compõe a saudade, Prazeres e dores de um tempo antigo – longínquo.
Porém as horas são eternas, Ninfas que só pretendem Embelezar meu universo, Com cores, pedras preciosas e perfumes, Imagens de uma tela perdida
Em alguma parte de mim.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

TICKET TO THE PAST
Onde estão meus cabelos
E o perfume de menta? Onde estão as pessoas da festa? Procuro perdido na imensidão O sorriso que me fazia sorrir, O pranto que me fazia chorar, A gasolina que saía transformada do escapamento, Poluindo meu caminho. Como me caía bem a superficialidade, Como me embelezava a ingenuidade. O meu silêncio perdido entre as falas, Minhas risadas: vinte e poucos anos. Eu chorava, Eu brincava, Eu saía, Eu gastava. Hoje uma velhice precipitada Secou minha lágrima, Paralisou meu gingado, Afastou os amigos E enxugou a conta bancária. Resta-me ainda o meu quarto, A eterna solidão, A saudade de tudo
E a música que faz tudo lembrar.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

MINOTAUROS
Despedida de quem não foi encontrado. Um beijo no espaço vazio – um abraço no nada, Que é o desejo por tudo, Por todos os corpos Por todas as bocas. Tudo misturado à água do cântaro Para saciar uma sede rara e mortal.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

O que fazer se a carne do homem é nociva para a mulher e a carne da mulher é indispensável para o homem?
Vamos para o pântano!

SOLIDÃO A MIL

Sou feito de carne e osso, Uma alma que irradia, Uma tensão, uma folia. Sou feito de ironia. Minha “mentalidade” É minha única companhia. Vocês, que passam intensos – mudos, Formam o meu cenário De silêncio e alegria. Ficarmos um momento apenas São os detalhes do dia. No fundo, estamos só, Numa noite infinita De silêncio: melancolia.

Prefácio de Carla Adriana Reinaldo Garcia dos Santos

Prefácio
Em seu livro “Flores do Pântano”, João Rosa de Castro lembra que a poesia reside na alma humana.  E, como bem diz Rubem Alves, “Alma é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós mesmos. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços e o coração. Circula em nosso sangue e está misturada com os nossos músculos...”. Então, a poesia é a arte de fazer com que as palavras contornem os sentimentos, o pulsar dos sentidos que nos habitam para, com uma sonoridade harmoniosa, expressarem o que flui do coração, endereçando-nos à emoção. Assim, o autor faz das lembranças vividas e do sentimento de solidão a matéria prima, o barro vivo, que molda em poesia onde retrata o amor, o prazer, a dor, seus deuses, seus sonhos e seu mundo a seu modo, isoladamente. Desta forma, desenha a saudade no caminhar contínuo do tempo, na busca pelo sentido da existência. Demonstra uma sensibilidade límpida, criatividade, suavidade e habilidade em brincar com as palavras em uma escrita…